13.02.2026
Claudia Santos Cruz alerta para o afastamento das prioridades humanitárias urgentes em África
Claudia Santos Cruz, sócia da Morais Leitão, consultora da MDR Advogados e Vice-Chair do IBA African Regional Forum, alertou que o crescente número de conferências sobre “valores familiares” realizadas em África corre o risco de desviar a atenção dos desafios humanitários mais prementes do continente, incluindo o acesso a cuidados de saúde e à energia.
Numa entrevista publicada pela International Bar Association (IBA), a nossa advogada sublinhou a necessidade de enquadrar estes debates nas realidades socioeconómicas enfrentadas por milhões de pessoas em vários países africanos.
«Quando se trabalha ou intervém em África, é preciso contexto», afirma. «A esperança média de vida é de 64 anos e 600 milhões de pessoas não têm acesso a cuidados de saúde básicos. Vinte e um milhões de pessoas vivem com VIH/SIDA, África concentra 24% do total mundial de doenças, mas apenas 1% da despesa global em saúde é realizada no continente. Temo que estejamos a afastar-nos de verdadeiras questões humanitárias, como os serviços de saúde básicos e a energia.»
As suas declarações surgem num contexto de aumento de eventos de grande visibilidade que abordam temas como o aborto e os direitos LGBTQI+ sob a bandeira da proteção dos «valores familiares». Claudia Santos Cruz questionou se estes debates refletem prioridades definidas localmente ou agendas externas.
«Estaremos realmente preocupados com os valores familiares que o Norte Global quer trazer, que [os africanos] provavelmente ignorarão de qualquer forma porque não são necessariamente valores familiares africanos?»
Destacou ainda aquilo que descreve como uma desconexão entre intervenientes internacionais e a realidade concreta dos países que acolhem estas conferências.
«As pessoas que falam nestas conferências, seja em defesa do aborto, de políticas LGBTQI+ ou de valores familiares, chegam ao aeroporto, falam e depois vão-se embora. Não percorrem a realidade destes países», afirma.
A entrevista completa encontra-se disponível no website da IBA.