08.05.2026
SNS, inovação farmacêutica e IA em saúde: os destaques da conferência sobre Economia na Saúde
No passado dia 5 de maio, o Auditório João Morais Leitão, em Lisboa, foi palco da conferência "Economia na Saúde: Sustentabilidade e Inovação", organizada pelo Jornal Económico em parceria com a Morais Leitão. O evento reuniu especialistas, representantes da indústria, responsáveis institucionais e profissionais do setor para debater os principais desafios e oportunidades da economia da saúde em Portugal.
Ao longo de vários painéis, os participantes abordaram temas como a sustentabilidade financeira do sistema de saúde, a inovação tecnológica, os modelos de financiamento, a transformação digital e o papel das políticas públicas. A moderação do painel "Responder à aceleração" esteve a cargo da nossa advogada Fernanda Matoso, sócia da Morais Leitão.
Prevenção e literacia como resposta ao envelhecimento da população
O painel "Tendências e Oportunidades" centrou-se no impacto do envelhecimento demográfico sobre o sistema de saúde e nas estratégias para aliviar a pressão sobre os serviços. Helena Freitas, Country Lead da Sanofi Portugal, defendeu que a saúde deve ser encarada como um valor e não como um problema, salientando que os governos tendem a olhar mais para a despesa do que para os resultados. Para a responsável, o caminho passa pela aposta na literacia e na prevenção, nomeadamente através de vacinas e de intervenção precoce na doença cardiovascular.
Óscar Gaspar, presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP), alertou para a dificuldade crescente em atrair jovens para a medicina, um fenómeno já visível no centro da Europa. Criticou ainda o que considerou ser uma falsa dicotomia entre o setor público e o privado, sublinhando que o SNS nunca teve tantos profissionais de saúde.
Carlos Ribeiro, diretor-geral da Takeda Portugal, abordou os desafios das cadeias de abastecimento farmacêutico após a pandemia, as guerras e as tarifas, destacando as limitações de ajuste de preços numa área altamente regulada e a importância de agilizar os processos burocráticos associados aos ensaios clínicos.
Dados, inovação farmacêutica e o papel do regulador
Hermano Rodrigues, da EY-Parthenon, apresentou um retrato da economia da saúde em Portugal, onde a despesa atingiu 29,2 mil milhões de euros em 2024, equivalente a 10,2% do PIB, acima da média da OCDE. O responsável destacou que o SNS enfrenta pressão crescente, com cerca de 1,6 milhões de utentes sem médico de família e um milhão em lista de espera para consultas hospitalares.
No painel "Valor com Potencial", Antonieta Lucas, presidente da Apormed, revelou que o investimento em tecnologias médicas, incluindo as que permitem cirurgia de ambulatório, gerou uma poupança de 800 milhões de euros. João Almeida Lopes, presidente da Apifarma, destacou o acordo inovador celebrado com o Governo em março de 2025 para controlo da despesa com medicamentos, e a transformação da taxa extraordinária do Estado num incentivo ao investimento em Portugal.
Rui Santos Ivo, presidente do Infarmed, apresentou o "Tracker de Processos", nova ferramenta do regulador que permitirá acompanhar os pedidos de financiamento de novos medicamentos e aumentar a transparência e previsibilidade do sistema. O responsável manifestou confiança na revisão da legislação europeia do medicamento como motor de competitividade e apelou a uma visão integrada do ciclo do medicamento.
Público, privado e PPP: a falsa dicotomia
O painel "Tratar os Portugueses: Público, Privado, PPP" reuniu José Bento, presidente do Hospital de Cascais, Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), e Tamara Milagre, presidente da Associação Evita. A mensagem central foi que a dicotomia entre público e privado está ultrapassada. José Bento sublinhou que a gestão hospitalar não deve ser condicionada pelo financiamento, mas sim orientada para o resultado clínico, e apelou à articulação entre os três modelos, público, privado e PPP, para obter melhores resultados. Xavier Barreto salientou que o SNS registou em 2025 a maior atividade de sempre, mas que a procura continua a superar a capacidade de resposta.
Inteligência artificial: potencial com limites
No debate sobre inovação tecnológica intitulado "Responder à aceleração", Ana Gil Abreu Marques, General Counsel e Compliance Officer da Siemens Healthineers em Portugal, defendeu que a inteligência artificial será um motor de inovação na saúde, nomeadamente ao nível do diagnóstico e da resposta clínica, mas advertiu que não deve ser encarada como solução universal. A sua utilização deve ser acompanhada de literacia, tanto nos profissionais de saúde como nos pacientes, e começar por resolver problemas concretos e básicos.
Mécia Fonseca, da Novartis, sublinhou que os medicamentos biológicos representam não apenas ganhos clínicos, mas também valor para a sociedade através da redução de internamentos, e alertou para o desfasamento entre o ritmo da inovação tecnológica e o da regulamentação, e para a perda de competitividade de Portugal face a Espanha na atração de ensaios clínicos.